Natureba ao natural #2

Continuando o papo natureba…

Eu não virei ativista.

Gosto de fazer a minha parte e de pensar que, de certo modo, posso influenciar outras pessoas – pelo exemplo. Mas não fico discursando não. Acho que aprendi isso com o pessoal vegetariano que conheço: eles respeitam muito quem não tem os mesmos princípios – apesar de rolarem umas piadinhas às vezes, que eu sempre rebato com bom humor. Para mim a questão é simples: esse pessoal nunca comeu carne de verdade. Essas porcarias cheias de químicos são um convite ao vegetarianismo e veganismo, eu provavelmente faria o mesmo se tivesse nascido aqui. Ou não, se eu amasse tanto os animais que o fato de pensar que alguém mata muitos deles para que eu possa comer me fizesse sofrer.

Dizem que diminuir a quantidade de carne que se come por semana é o primeiro passo para manter hábitos mais conscientes de preservação do planeta. Tive que fazer na marra, já que aqui carne que preste é cara (eu sempre reclamei disso). No mais, aprendi a priorizar sempre produtos ecológicos/orgânicos no mercado. São mais caros, e a minha política é: se não deu para comprar ecológico/orgânico porque o preço é mais do que o dobro do produto normal, eu compro o produto sueco ou não compro – afinal, frutas e verduras da estação são sempre mais baratos e a maioria dos produtos produzidos o “ano todo” dão o “ano todo” com a ajuda de muitos agrotóxicos e hormônios. Mas há coisas que não dependem de uma estação, por exemplo, a carne (ai! a minha obsessão!): você encontra carne super barata em qualquer mercado sueco e normalmente ela é importada da Irlanda e tem gosto de papel (é bem aquele tipo de porcaria cheia de químicos que minha mãe tanto falava). Carne sueca é mais cara, ecológica é o dobro (ou mais) do preço. Compro carne sueca, porque ao menos sei que na Suécia algumas normas impedem o uso de milhões de hormônios e vacinas nos animais. Quando queremos fazer algo mais especial, tipo um churrasco, aí compramos carne ecológica. Dói no bolso, mas a gente fica feliz na alma – e  pode apreciar o sabor verdadeiro da comida. A única coisa que sempre me foge é o tomate: adoro tomate… não sei cozinhar sem. Tomate ecológico normalmente é mais caro do que carne ecológica (mentira, tô exagerando). E a Suécia não é lá um país onde se produz muito tomate né?

Mesmo em uma cidade grande como Göteborg a oferta de comida ecológica/orgânica nos mercados nem sempre é abundante. Há redes de supermercados em que a presença de produtos ecológicos é mais forte do que em outras – ICA é uma delas. Como eu citei no outro post e no parágrafo acima, consciência ecológica custa dinheiro, e a maioria das pessoas prioriza o bolso na hora de fazer o rancho do mês. Como eu não posso me dar outros luxos (tipo, fazer as unhas toda a semana) decidi entrar nessa onda e fazer da compra de comida de qualidade meu luxo. Acredito que dessa forma também ajudo pequenos produtores e, quem sabe, os preços dos produtos ecológicos/orgânicos caem um pouco, o que incentivaria outras pessoas a comprar também.

Não tô ganhando nada (diretamente) com isso, mas a linha de produtos ecológicos do ICA é muito fácil de identificar. Além disso,  tem uma quantidade enorme de produtos: ovos, macarrão, massa de tomate, frutas, verduras, carnes, leite... até chips eco tem!

Não tô ganhando nada (diretamente) com isso, mas a linha de produtos ecológicos do ICA é muito fácil de identificar. Além disso, tem uma quantidade enorme de produtos: ovos, macarrão, massa de tomate, frutas, verduras, carnes, leite… até chips eco tem!

Mas nem tudo que é bom para o meio ambiente é mais caro. Só que às vezes dá mais trabalho, e exige um pouco de planejamento e esforço. Um exemplo disso é que com a chegada do bebê decidimos optar por fraldas de pano. Que história mais linda né? É claro que eu posso fazer isso porque: conto com o apoio do meu marido e tenho máquina de lavar em casa (nem todas as pessoas tem máquina de lavar roupas em casa aqui… é só pensar em todas aquelas histórias de lavanderias coletivas). No Brasil seria ainda mais fácil porque nem é preciso usar secadora! O fato é que uma fralda descartável demora em média 450 anos para se decompor. Um bebê pode chegar a usar 5 mil fraldas descartáveis durante a sua vida. Parece muito não é? E é… principalmente porque o uso de fraldas descartáveis atrasa o desfralde. Quer coisa mais prática? Trabalho zero com a fralda, que quando está cheia vai para o lixo, e garantia de bunda sequinha para o bebê – que nem percebe que está mijado ou cagado. Por que cargas d’água a criança vai querer se livrar da fralda se ela nunca tem a sensação de estar suja? Acaba acomodando alguns pais também, que por falta de tempo ou preguiça mesmo, não se dedicam ao desfralde da criança (afinal, isso não acontece como por mágica!). Agora pense no custo: mesmo que a criança use só a metade dessa quantia, dá para ficar triste com o preço do pacote da fralda descartável… Cerca de 40 fraldas de pano são suficientes para dar conta de todas as cagadas e mijadas de uma criança durante todo o período em que ela usar fraldas. E hoje em dia existem novos modelos de “calças plásticas” (que não usam plástico, mas outros tipos de tecidos impermeáveis) bem mais bonitinhas, coloridas e legais. O investimento inicial é maior, mas o retorno chega bem rapidinho.

Daí que você tem várias opções no mercado: fraldas de pano costuradas ao modelo das fraldas descartáveis (já vem embutidas “dentro” da calça plástica) e aquelas fraldas comuns quadradas de pano que você dobra e coloca dentro da calça de proteção. Vaza? Não sei, não comecei a usar ainda. Comprei as fraldas de pano dobráveis e dois modelos diferentes da calça de proteção: um com tamanho P para recém nascidos e outro que é tipo um tamanho único que você vai “desdobrando” (com a ajuda de botões) conforme o bebê vai crescendo. Essas você usa até o desfralde. Tô bem animada! Até aprendi que o tecido natural mais impermeável que existe são as calças de proteção de lã. Tô curiosa para ver como é que isso funciona…

Dica: se você mora na Suécia e quer se aventurar no mundo das fraldas de pano basta “googlar” tyggblöjor. As fraldas de pano comum são conhecidas como vikblöjor (vik de “att vika” que é o verbo para dobrar) e são a opção mais barata.  Aquelas que são como fraldas descartáveis são conhecidas como allt i ett (tudo em um) e são mais caras e mais difíceis de secar (é bom ter lavadora e secadora nesse caso); mas são super charmosas. Apesar disso, não comprei nenhuma desse estilo. As calças de proteção são chamadas de blöjbyxa (calça de fralda, ou fralda calça) e tem em diversos tamanhos e modelos… aquele que é para a vida inteira é simplesmente one size. E aquela que eu disse que eu tô curiosa para experimentar – a calça de proteção de lã – é a blöjbyxa i ull. 

"Calça plástica" moderna, do tipo one size: bem pequeninha, e grandona. É charmosa demais né?

“Calça plástica” moderna, do tipo one size: bem pequeninha, e grandona. É charmosa demais né?

Eu já ganhei fraldas descartáveis (para recém nascido) e vou usá-las. Mas definitivamente não vou comprar. Já li artigos que dizem que a fralda de pano é tão prejudicial ao meio ambiente quanto a fralda descartável e que o ideal é não usar fraldas em bebês. É curioso e desafiante, mas no modelo atual de sociedade em que vivemos não vejo a possibilidade de aplicar isso na vida real – não a menos que você não precise trabalhar. Aqui na Suécia a licença maternidade/paternidade é longa, mas não é o caso da grande maioria dos países do mundo. Com a licença curta coisas essenciais como amamentar já se tornam um grande desafio… que dirá correr com a criança para o banheiro o tempo todo. Fraldas de pano podem ser usadas por mais de uma criança, e depois de serem usadas pelas minhas poderão ser doadas para outras famílias… até virarem um paninho de limpeza. Tem muita gente que vende as calças de proteção no mercado de segunda mão aqui na Suécia.

Falando nisso, o mercado de segunda mão sueco é muito atrativo. Acho que esse tipo de coisa ainda não é interessante no Brasil justamente por que o brasileiro não tinha dinheiro para consumir, isso é muito recente. Quantos de nós tem lembrança das calças remendadas e sapatos de números bem maiores quando crianças? E usar as roupas dos primos também, ou dos irmãos mais velhos. Infelizmente a cultura mudou muito e atualmente as crianças tem vergonha de usar roupas mais gastas e tudo tem que ser novo e de marca. Criou-se aquela mentalidade de que você não é interessante se não tiver o tênis, celular ou mochila certa. Muitas crianças sofrem bullyng nas escolas até mesmo por causa da comida que comem (se seu pai não tem dinheiro para te comprar passatempo, você é um babaca – e passatempo é uma comida horrível, sem valor nutricional nenhum… só mais uma porcaria cheia de químicos). O ter é mais importante do que o ser ou pior: você é aquilo que você tem. A Suécia tem um passado bem radical e socialista nesse sentido, mas a cada dia que passa vem sendo mais dominada por essa cultura de consumo. Ainda há resistentes, mas virou notícia, por exemplo, que as primeiras mansões de milhões de coroas foram construídas na Suécia – e não me refiro aos milhões de coroas pela casa pronta, me refiro ao metro quadrado. Em Göteborg já é “normal” pagar 5 milhões de coroas por uma casa.

Mas essa é uma característica que afeta sobretudo famílias: você – casando ou não – compra uma casa, um carro e adota um cachorro – é o status “três V” para vuxen (adulto): volvo, villa, vuvve. A maioria dos jovens que saem de casa correm para as lojas de móveis de segunda mão. Isso porque estudar e trabalhar na Suécia não é uma constante; a maioria dos jovens estuda e pega dinheiro emprestado do governo para se sustentar. Como essa bolsa é pequena, o pessoal se vira como pode.

Eu sou fã, compro muito nas lojas de segunda mão – principalmente móveis e etc, não sou uma shopaholic e não vivo comprando roupas novas (ou semi novas). Além das lojas de segunda mão há muitos sites de segunda mão e até o carrinho de bebê (que é uma coisa que custa muitos mils na Suécia) compramos por meio dele. Benjamin ganhou um caminhão de roupas usadas, outras tantas peças (e brinquedinhos e até cortinas) comprei em segunda mão. E isso não significa comprar qualquer coisa caindo aos pedaços: tem que pesquisar e comprar produtos de qualidade; afinal, comprar bens duráveis é um jeito de cuidar do meio ambiente. Por isso é que móveis e brinquedos de madeira, por exemplo, são muito melhores do que coisas de plástico. Além disso, é divertido porque você pode lixar e pintar para dar uma cara nova ou toque pessoal ao móvel. É muito legal preparar o cantinho do bebê, fiquei me roendo de vontade de fazer uma coisa toda chique-chique decorada – a internet está aí com milhões de ideias de como gastar suas calças para montar o quarto de bebê ideal – mas na bem da verdade… se eu quero ensinar meu filho que você não é aquilo que você tem, preciso começar do começo certo? Eu não preciso entrar na moda para montar um quarto de bebê, posso fazer aquilo que é do meu gosto e aposto que vai ficar legal e funcional.

E se ele ainda não entende o que é ter coisas de marca eu também não preciso comprar coisas de marca para ele. Falando nisso, as roupinhas novas que comprei aqui na Suécia foram de algodão orgânico. A indústria da moda é uma das indústrias mais poluentes do planeta – devido aos tecidos sintéticos e ao uso das diversas tinturas, lavagens e produtos químicos que são adicionados aos tecidos para que eles se tornem “seguros” (anti inflamáveis, por exemplo) e praticamente não há opções ecologicamente corretas. Uma maneira de diminuir o impacto é optar pelos tecidos naturais e, quando possível, orgânicos. Infelizmente, nem mesmo as roupas feitas de tecidos orgânicos estão isentas de uma cacetada de aditivos químicos, então o melhor mesmo – principalmente para bebês – é investir em roupas de segunda mão (ou lavar as peças novas ao menos três vezes antes de usar pela primeira vez) e que não tenham muitas estampas – normalmente essas são feitas com produtos muito fortes que contem tóxicos.

Pra finalizar esse post por aqui, deixo com vocês um link para um blog novo que encontrei (novo porque ainda não há muitas postagens) sobre maternidade e preservação do meio ambiente, o Eco Maternidade.

 

Natureba ao natural

Tem muita gente que vive uma transformação radical quando muda de país. Tem aqueles que começam a viver um estilo de vida totalmente diferente – seja por opção ou por imposição da mudança – e tem a galera que acaba por desenvolver mais uma das facetas da sua formação.

Depois que eu mudei para cá agucei muito mais a minha consciência ecológica e a relação com a compra consciente. Eu posso dizer que agucei porque minha mãe sempre foi uma pessoa a favor da comida natural, contra produtos industrializados e contra o consumo excessivo. Apesar de ela não ter nenhum contato com esses movimentos naturebas, minha mãe sempre bradou aos quatro ventos o quanto a comida tem se tornado cheia de químicos, veneno, hormônios e o quanto isso faz mal para a saúde. Pra ela, essas coisas de mercados sempre foram “porcarias cheias de químicos”. Comida boa era a comida de antigamente…

E não só para ela, como para muita gente que mora lá nas bandas de onde eu venho. Nós – a juventude – sempre escutamos super céticos e com aquele sorriso no canto da boca o quanto é que a alimentação moderna faz mal. Imagine se é verdade uma coisa dessas? Isso é desenvolvimento, não é perigoso. O progresso faz os alimentos mais duráveis e confiáveis porque essas substâncias acrescentadas aos produtos de consumo nada mais são do que aliados para nos defender de contaminações, vírus, bactérias, parasitas e todas aquelas coisas feias e do mal que matam as pessoas. Não tem perigo! Daí você muda para um país dito desenvolvido e vê um grande movimento de pessoas – e muitas delas jovens, muito mais jovens do que você mesmo – lutando pelos mesmos valores e defendendo as mesmas ideias do pessoal das antigas (aqueles que você costumava achar exagerados) lá da sua cidade do interior…

Então será quê?

Não é a toa que se diz por aí que mãe sempre tem razão (ah, que ótimo, vou parir em breve!!!). O que acontece na Suécia, Europa e países ditos desenvolvidos é que as pessoas já experimentaram usar e abusar de todas essas “porcarias cheias de químicos” que estão chegando as prateleiras dos locais mais subdesenvolvidos do planeta agora. Verdade, a gente mora em um país subdesenvolvido, o Brasil. Quando as pessoas dos países desenvolvidos descobrem que certas substâncias fazem mal elas fazem campanhas para que esses produtos parem de circular e de ser utilizados nos países delas. Quando elas conseguem, o país cria leis que impedem que determinados aditivos químicos sejam incorporados aos alimentos (e roupas, e calçados, e brinquedos), e as indústrias param de usar essas merdas naquele país. Mas como os capitalistas não são bobos e nem nada, eles simplesmente se mudam para um outro canto do planeta, onde todo mundo anda com “sede de progresso” e vendem a mesma ideia suja e tóxica para consumidores desinformados (tipo a Maria Helena aqui) que tem mãe que sabe o que é bom mas que não escuta. Afinal, os tempos mudam e isso se chama progresso!

Tapa na cara da gente viu…

É claro que isso depende do local em que você vai cair também (me refiro ao grupo de “amigos” que vão te rodear e influenciar na sua vida nova) . E é claro que eu estou falando da minha experiência de guria lá do interior, que respirou a vida inteira DDT comprado no Paraguai mas que ao mesmo tempo comia galinha caipira, alface colhida da horta e churrasco feito de carne de gado, porco, ovelha e tudo o mais que andava livre no pasto a vida inteira e só entrava no confinamento uns dias antes de entrar para a faca. O pessoal que vive em cidade grande provavelmente já come e consome produtos super industrializados há muito mais tempo do que eu estou viva. E provavelmente (também) alguns já estejam por dentro dos mesmos movimentos do pessoal daqui. Pra mim isso é meio óbvio, mas eu tenho que gastar um parágrafo explicando o be-a-bá antes que algum expert venha me apontar nos comentários que eu não posso pegar a minha experiência lá das terras de onde Judas perdeu as botas e vestir o Brasil inteiro. Para deixar bem claro então: estou falando da minha experiência pessoal.

Cai de paraquedas numa comunidade meio alternativa hippie aqui em Göteborg. Pra melhorar, meu marido e os contatos mais chegados da nossa rede tem uma consciência político-social-ambiental afiadíssima. Isso significa, em outras palavras, que todo mundo é ativista de alguma coisa: pela paz no mundo, pelos direitos dos animais, pelos direitos da comunidade LGBTQ, pelos direitos das mulheres, pelo fim da discriminação racial e por aí vai… No final das contas, os ativistas pela paz mundial também estão lutando pelo fim da descriminação racial, todas as feministas são lésbicas e lutam pelos direitos da comunidade LGBTQ também – brincadeira… elas não são lésbicas. Mas a maioria das feministas radicais que eu conheço são vegetarianas e extremamente hippies.

E não é que eu esteja alisando os meus contatos suecos, exaltando a inteligência e engajamento deles em detrimento dos meus amigos brasileiros. Nada a ver. Você só pode ser vegetariano/vegano quando suas necessidades mais básicas de sobrevivência já foram supridas. Quando você não precisa mais se preocupar com o “será que vou ter dinheiro para comprar comida?”, você poderá se preocupar com o “Que tipo de comida é que vou comprar com meu dinheiro?”. Essa diferença básica tem muita gente que ignora no Brasil. Tem gente que faz de conta que não temos mais 14 milhões de FAMÍLIAS na miséria. Que reclama do preço do combustível porque tem um carro que precisa abastecer, mas não pensa que tem gente que não tem dinheiro para comprar a cesta básica. Se você tem fome, não tem outra coisa que pensar a não ser em conseguir comida. Não vai pensar em estudar para um futuro melhor, que dirá em se engajar em algum movimento ativista pelos direitos de qualquer coisa. Se você não tem uma casa – ou tem uma casa caindo – não vai pensar em outra coisa senão melhorar a sua casinha; seja mudando e pagando um aluguel mais alto ou fazendo uma reforma no barraco que você ocupou. E vamos criticar o Bolsa Família, que dá o direito de algumas pessoas pensarem um pouco além do almoço do dia seguinte, porque isso é para sustentar vagabundo né mesmo?

É… vamos deixar que os miseráveis se fodam. Afinal eles só atrapalham e em época de eleição votam no partido errado. São analfabetos funcionais que não fazem nada a não ser pensar no dinheiro do Bolsa Família. Além disso, azar o deles não conseguir subir na vida. Eu tenho um amigo de um primo de uma tia que era vizinha de um guri que contou que conhece um preto pobre que passou fome e se formou doutor. Quem sabe faz a hora… e não importa se foi apenas um em um milhão, isso só prova que o resto é um bando de gente dodói que não faz outra coisa senão ficar de mimimi e mamar as tetas do governo. Dinheiro do Bolso Família para comprar comida? É ruim hein! Esse povo nem trabalha porque ganha uma fortuna… e não estão interessados em ajudar a construir um Brasil melhor não. Eu sim. Eu quero mais direitos para mim, eles já ganham que chega!

Empatia é uma coisa linda de se ver…

Mas como eu ia dizendo: aqui ninguém precisa se preocupar se o dinheiro do aluguel vai dar, ou se a compra do mês vai ficar de novo pendurada no mercadinho da esquina. Quem está de barriga cheia e quentinho arruma outras coisas com que se incomodar, e mudar o mundo é uma delas. Até está na moda, eu acho. Às vezes irrita, por demais, e outras vezes ajuda pessoas que já tinham um super ego que estava avisando há tempos das ciladas dessa vida a enxergar o óbvio… foi assim que acabei enxergando, para minha surpresa, que minha mãe estava certa.

Talvez seja o fato de que simplesmente amadureci, ou que eu esteja virando mãe mas, seja lá o que for… algumas coisas mudaram definitivamente em relação aos meus modos de consumo: comida ecológica, fraldas de pano e roupas de segunda mão, por exemplo, são algumas das escolhas que ando fazendo. Quero dividir mais com vocês a esse respeito e por isso (e porque o posto ficou super hiper mega enorme), esse assunto vai em partes e está separado em mais de um post.

Sobre os coments… ultimamente tenho que escolher entre postar ou responder aos coments. Sorry! Se não for uma pergunta direta e que precisa de resposta urgente eu deixo de lado. Mas quero agradecer todo mundo que tem deixado mensagens, tanto as de apoio, como as de crítica ou um simples alô! Essa interação é muito legal.

Nos vemos em breve!

 

Coisas que você não sabe antes da gravidez

Essa coisa de internet transformou todo mundo em pac mens da informação: você entra no labirinto do google e começa a consumir zilhões de bytes em qualquer assunto do seu interesse e volta e meia topa com coisas bizarras que você gostaria de evitar. Ainda assim, estamos lá loucos comendo cada frase, torcendo para que encontremos algumas espécie de super poder no meio da nosso busca que nos torne aptos a enfrentar nossa própria ignorância – e capazes de devorá-la à Djavan.

Já faz um tempo que ando pensando em dividir coisas que eu descobri com a gravidez (garimpando o Google) que definitivamente não passavam pela minha cabeça. Primeiro, é cilada Bino! como diria uma Bruna que conheço. Você passa por um monte de processos fodásticos, sente dores esquisitas, ama e odeia o mundo em escala 9.7 richter pra depois ficar com cara de boba (e não só com a cara) a partir da primeira vez que o bebê mexe dentro de você.

Eu sei que há mulheres que não sentem nenhum romantismo pelo fato de estarem grávidas. Eu respeito vocês, de boa, mas… deixem que nós, que levamos uma rasteira dos hormônios e das emoções, fiquemos babamos e exaltando os desprazeres de carregar um barrigão. Prometo que vou deixar vocês falarem que gravidez é um saco e nem vou revidar – afinal, gravidez é uma coisa bem pessoal.

Por mais que eu tenha um bebê que foi querido e planejado, quem não estava definitivamente preparada para a gravidez era eu. No dia do teste eu senti um pânico absurdo, do tipo: lascou-se guria… agora é real. É o mesmo sentimento que dá quando sentamos naquele banco do vagão do carrinho da montanha russa: você sabe que tem medo de altura, você sabe que vai quase se mijar na primeira queda, que vai gritar o trajeto inteiro (no meu caso, eu grito muiiiiiittttooooo mesmo) mas mesmo assim… você senta lá e afivela aquela merda de cinto. Porque simplesmente uma vez que você fez isso, não tem volta. Não tem pedir pinico. É sinistro, mas é legal.

Eu passei a gravidez bem, sem maiores peripécias. Tem gente que vomita os bofes todo os dias. Eu passei alguns dias enjoada, mas nada muito grave. O que mais me pegou foi a parte emocional e a questão do trabalho mesmo… trabalhar com uma criança deficiente que é doente quando se está grávida não é lá uma combinação muito esperta. Sempre ouvi dizer que grávidas ficam emotivas, choram por qualquer coisa. Ou que ficam com uma TPM constante em que dá vontade de explodir o mundo. Mas não acreditava muito… parecia aquele papo de homem que gosta de ficar fazendo piadinha do tipo “todo mulher fica louca na TPM”. No meu caso, as duas coisas foram reais. Tinha pesadelos constantes, um medo absurdo de a minha criança nascer/ficar doente (acho que a deficiência, num país como a Suécia, é uma situação com a qual a gente pode trabalhar. Já a doença…) e uma raiva infinita de tudo relacionado a Suécia. Principalmente a escuridão. Até o Natal me incomodou. E o A. Mas o A e eu temos um caso de amor e ódio antigo… então não foi muita novidade.

A solidão natural do inverno sueco resultou em uma péssima combinação para esse maremoto emocional. Se você está pensando em engravidar e mora aqui, eu sugiro que vá para o Brasil nos meses de escuridão. Sol e calor fazem milagres. Família (se você tem uma que te ama muito) também. Eu só me recuperei do meu stress no Brasil. Foi lá que eu realmente comecei a sentir felicidade e paz em relação a minha gravidez.

Por causa da sobrecarga emocional eu tive dores lombares nos primeiros meses. Sabe aquela história de que grávida tem dor nas costas? Tem mesmo, e você não precisa esperar até o sétimo mês de gestação. Além disso, eu sempre tive gengivite como sintoma de TPM. Enquanto usava anticoncepcional esse problema foi controlado. Eu lembro de encontrar uma guria (aquela mesma Bruna) que comentou que grávidas deveriam ter atendimento odontológico gratuito na Suécia por causa do sangramento da gengiva. E eu hein? Sangramento? Da gengiva? Achei a maior dodeira. E é: depois de uma semana, lá estava eu com a gengiva hiper mega ultra inflamada. Nunca tive tanta dor na minha vida. A dor irradiava até o ouvido e metade da minha cara ficava dormente e latejando (tudo ao mesmo tempo). Depois de passar duas noites sem dormir, resolvi ir ao dentista – o que é uma coisa super cara aqui. Eu estava morrendo de medo de perder os dentes, tamanha a dor que eu sentia. Depois de uma consulta de 15 minutos, saí do consultório dentário R$120 reais mais pobre (isso foi apenas pela consulta, para ela ficar cutucando a minha gengiva duzentas vezes e fazendo sangrar e para passar uma pomadinha anestésica enquanto ela limpava – pasme – apenas um dente) levando um tapinha nas costas enquanto ouvia uma parada de “gravidez é assim mesmo; você fica sensível e acaba com gengivite. É normal que você sinta dor, que inflame, e que sangre. Escove bem os dentes várias vezes por dia e use essa coisa aqui com gosto super ruim e que vai te dar uma super dor de estômago 30 min após cada escovação”. Sorriso amarelo.

Outra coisa que chega quando quiser é a sensação de gelatina nos ossos, principalmente no quadril. Eu nem tinha barriga ainda e de repente lá estava eu perdendo os passos porque tinha a impressão que meu fêmur desencaixou. Que tristreza né?

E dor no umbigo… cara, o que foi aquilo? Acordei no meio da noite com a sensação de que minha barriga estava abrindo. Bem no meio. Bem no umbigo. Pânico!!!! Eu tenho uma relação especial com meu umbigo. Não gosto que mecham. Limpo sempre com muito cuidado. Sempre tive um pavor surreal de que se eu cutucar demais o umbigo vou arranjar uma hérnia que vai crescer e crescer até explodir. E daí vou ter que juntar as minhas próprias tripas que estarão espalhadas pelo chão envoltas em muito sangue para numa tentativa desesperada, colocar tudo de volta. E essa será minha última visão antes de morrer. Que história mais linda né? Imagina o que me passou pela cabeça quando acordei com dor no umbigo? Mais do mesmo, com a difenreça de que o meu bebê também estaria no meio de toda essa confusão de sangue e de tripas… Nada disso aconteceu (até agora), mas a sensação da dor no umbigo vai e volta (junto com a queimação na pele).

A última da vez é a dor nas costelas. Não estou falando de quando o bebê resolve por o pé bem pertinho do pulmão não e sim de dor nas costelas constante. Se eu sentei por muito tempo, dói. Se eu deitar apenas de um lado, dói. Tenho que virar para o outro até que comece a dor daquele lado e aí, mudar de posição… e vice versa até o infinito.

Mãe de primeira viagem, imagina se não enchi o saco de todo mundo com essas histórias um milhão de vezes. A minha parteira só suspira e repete que “se não há sangramento ou contrações, está tudo bem porque o corpo passa por muitas transformações durante a gravidez e esse tipo de desconforto é normal”. Ou melhor, todo esse leque infinito de desconfortos. Daí eu busco respostas no google, e em fóruns de mães, e não sei ao certo se isso é bom ou ruim, porque… fiquei sabendo que a gravidez pode (em casos raros) desencadear uma hérnia no umbigo. E que as costelas podem quebrar mesmo por causa da pressão dos órgãos e do bebê (em casos mais do que raros quando as mulheres são pequenas e os bebês grandões). Que você pode perder os dentes por causa da constante inflamação na gengiva. Isso tudo sem nem tocar no mérito da diabetes gestacional e pré eclâmpsia, ambas que aparecem assim meio do nada.

O bom mesmo dessa saga doida é o lado A das informações. Você descobre que é possível realizar o parto normal de um bebê que está sentado. Que cordão umbilical enrolado no pescoço não é sinônimo de cesárea (30% dos bebês nascem com o cordão em volta do pescoço e não há risco de sufocamento, como se diz no Brasil). Que episiotomia é desnecessária. Que bebês sonham dentro do útero materno. Que eles tem soluços. Que eles podem reconhecer músicas que ouviram durante a gestação já nos primeiros dias de vida. E que estar grávida é um barato muito maior do que andar de montanha russa…

Mas que dá um medo sinistro e vontade de gritar o trajeto inteiro, ah, isso dá.

 

Assentando a poeira

Depois das férias no Brasil, volto para a casa com aquele sentimento de perdi alguma coisa e não sei o quê.

Me irrito fácil com as pessoas daqui. Primeiro, que tô cansada de ouvir outros brasileiros repetirem para mim que o Brasil é ótimo para passar as férias. Sério, vou ser mau educada agora: engulam suas palavras. Eu gosto realmente do Brasil como país, não estou de boa largada na praia curtindo água de coco (adivinhem se eu não tive que consultar o pai dos burros para ver como é que se escreve coco – do coqueiro?) para dar um tempo da minha vida badalada na Europa. Vou para casa curtir minha família, meus amigos e todos os eventuais problemas que isso represente. É certo que não estou trabalhando, não estou estudando e não estou sendo cobrada de nenhuma responsabilidade. Mas todo o mundo ao meu redor está. Ou vocês acham que eu passo um mês no Brasil e enquanto isso todo mundo está de férias comigo? É certo que vou para uma cidade pequena, mas ninguém faz uma parada e é decretado ponto facultativo porque a Maria Helena chegou não. A vida continua, e eu vou acompanhando do jeito que dá aqueles que eu amo. Acho um saco gente que fica me tratando como se eu fosse alienada só porque eu moro no interior – tão bonitinha ela, tão ingênua… – porque eu tô feliz de ter ficado na roça, no Brasil – o pior país do mundo segundo os brasileiros. E antes que algum leitor fique achando que é indireta, eu explico: meus queridos leitores, eu não vos conheço, e vocês não me conhecem. Se alguém achar que eu sou uma alienada, está ok porque eu só estou escrevendo sobre uma parte de mim aqui.

Falando nisso, eu acho que quero morar no Brasil se algum dia eu ficar grávida de novo. Em duas semanas já me tornei o barrigão invisível aos olhos do país super organizado e progressista Suécia. É verdade, eu sou uma pessoa carente que precisa muito de atenção, afirmação e bajulação 24 horas por dia. Meu marido tem que trabalhar então essa bajulação tem que vir de algum outro canto quando ele não está comigo e adivinhem? Meu estoque de “sinta-se o máximo por causa da gravidez” já está quase no fim. Sorte minha que conheço uma sueca louca por crianças (que amou estar grávida e que acha a experiência da maternidade a coisa mais sublime do mundo) e um par de brasileiras porretas que ficam me amaciando via whatsapp e facebook. Eu quero tanto falar sobre fraldas, parto e o carrinho que a gente comprou para o bebê. E a reforma que está quase pronta e aí finalmente vou poder montar o quarto. Mas é só eu adentrar esse assunto que a coisa já muda para a crise na Ucrânia, estupro coletivo de mulheres, o racismo, as eleições para o Parlamento Europeu. Quer saber? Eu também uma vontade enorme de gritar histericamente com essas pessoas. Eu estou grávida apenas por 9 meses. Eu quero compartilhar esse momento – que está sendo tão bacana para mim – falar dos meus medos, dos meus receios e das minhas escolhas. Mas não tem ninguém para escutar porque isso é secundário. O resto é mais importante.

Merda não é. E é por isso que tem tanta gestante achando uma bosta ficar grávida. Você se torna um saco enorme de peidos que vai inflando e inflando – tanto por causa das reviravoltas intestinais como hormonais, somada ao crescimento do bebê – que apesar de tudo é invisível. Eu sei que tem um monte de gente que está tentando desmitificar essa coisa de que “ser mãe é padecer no paraíso” e esse é um movimento importante. Mas porque é que a gente tem que transformar a gestação em uma merda e todo mundo tem que entrar no clube do “ser mãe é um mal necessário”? Eu não me importo de que passem a mão na minha barriga, o corpo é meu mas eu vejo isso como carinho e não invasão. E se alguém vier com algum conselho furado eu vou sorrir e dizer obrigada. Não preciso ficar indignada e já ajuntar cinco pedras na mão “porque as pessoas acham que tem o direito de se meter na minha vida porque estou grávida e não é bem assim”. Não é bem assim mesmo! Por que o mundo se tornou tão ranzinza e ninguém pode curtir um pouco  a vida?

Lá na minha cidade do interior eu fiz isso. Nada de Putin. Nada de grandes conflitos mundiais ou crises sociais. Só a vida mesmo como ela é, e principalmente, a vida que vem crescendo em mim como centro das atenções. Nada mal para uma pessoa carente não acham?

E para mudar o foco um pouco da coisa – mas não muito – eu não me conformo com o gosto da comida  nesse país. Acho que quem mora em cidade grande no Brasil sinta o mesmo que eu – ou não, e as feiras ao ar livre tenham muitas opções de comida boa – mas eu fico triste de tentar fazer comida às vezes. E o pão já me dá nojo e o café também. Pra quem acordava as seis da matina todo dia por causa do cheiro maravilhoso de café recém passado na cozinha, to na miséria do iogurte, suco e algumas frutas – maçãs aqui tem um gosto bom. Feijão e arroz funcionam bem também – viva o feijão nosso de cada dia. Mas saladas, carnes e verduras – em geral tudo que é muito gostoso quando é fresco – tem um gosto estranho. E me desanima. Se ao menos comer não fosse tão importante para mim. E não é só agora que estou grávida, sempre foi; mas comida aqui tem gosto de papel.

Tudo culpa da minha mãe, que é a melhor cozinheira do mundo. Saudades de comida caseira de verdade…

 

 

Contraste

Quando eu visitei a Suécia pela primeira vez tive a forte impressão que o  pessoal do lado de cá não  era rico como todo mundo pensava não. Lembro que coisas como o fato de as mulheres não frequentarem salões de beleza semanalmente (não ostentarem a maquilagem perfeita, nem jóias, nem a escova perfeita) ou de o pessoal não ter, ter, ter e ter e acima de tudo, nem mesmo ostentar, ostentar e ostentar o que eles tinham era sinal de que eu sempre estive enganada a respeito da riqueza dos europeus.

E eu estava realmente enganada. Não a respeito da riqueza deles, mas sim a respeito da cultura.

Obviamente, com a crise, uma série de coisas mudou na Europa e tem muita gente que estava numa situação confortável e agora tem que aprender a rebolar. Já o Brasil vem vivendo a mão contrária, e um monte de gente que estava rebolando muito agora está com dinheirinho a mais para comprar muita coisa: carro, reformar a casa, roupas caras. E tem gente que não vai concordar comigo, a partir de agora no texto, mas eu acho que o brasileiro está mais rico do que o europeu (ao menos na minha região).

O contraste está no fato de que os europeus não tem aquela cultura de ostentação. Eu não conheço ninguém que gaste cerca de duas ou três vezes o salário para comprar cortinas bonitas para a casa na Suécia. Lá de onde eu vim sei de várias pessoas que compram cortinas luxuosas para a casa, pagando em suaves parcelas, para deixar a casa mais bonita. Se na Suécia o conforto e a tecnologia custam caro (sim, eles abrem a carteira para qualquer coisa confortável), no Brasil o que vale é a marca e a moda. E o brasileiro paga mais, reclamando muito mas paga, pelo luxo.

Eu prestei atenção de que lá para as minhas bandas o número de casas de madeira velha que havia nas cidades está sendo substituída gradualmente pelos sobradinhos. E sobradinho é modo de dizer, porque é difícil ver alguém construindo uma “casinha” com menos de 120m quadrados. E quem tinha um carro, agora tem dois ou já trocou desde a última vez.

Como fazia mais de um ano que eu não voltava para casa e tudo o que eu sei a respeito do Brasil eu leio na internet; e como na internet todo mundo reclama, estava com uma imagem de que a coisa estava realmente feia. Mais do que feia, terrível. Pura falta de sacanagem! É gente demais chorando com a teta a três centímetros da boca. Reclamando da violência (o tempo inteiro), reclamando dos preços absurdos dos serviços (e são mesmo absurdos!), reclamando do fato de que a vida está difícil. Parece mesmo difícil. E não, eu não estou sendo irônica. Os salários ficaram mais gordos, mas os preços subiram muito. Um dos motivos é a bolha econômica que a expectativa da Copa e das Olimpíadas trouxe para o Brasil: fazer turismo de uma semana em qualquer canto do país é mais caro do que ir para Cancum, ou mesmo passar uma semana (luxuosa) na Argentina (esquiando).

Pra mim parece óbvio que a violência iria crescer diante desse cenário. Enquanto tem babaca que fica dando no You Tube lição de como se tornar o rei do camarote por uma noite, ainda tem gente que está na outra ponta extrema dessa gangorra e não tem escola (teve um monte de gente compartilhando a reportagem do fantástico né?), não tem casa, não tem comida. Mas isso não acontece muito no sul (ah, nosso sul sempre rico!), a menos que você esteja pensando em grandes cidades – as favelas ainda são uma realidade. Toda uma classe enriqueceu e está ostentando as roupas caras, os carros novos, os sobradinhos, os móveis sob medida, os novos brinquedinhos eletrônicos (no Brasil também tem criança desfilando com Iphone na mão – e olha que o Iphone aí custa mesmo um rim!); enquanto reclama dos 13 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família e estão mamando nas tetas do governo.

Brasileiro reclama de barriga cheia. Como diz minha colega blogueira Joana, já sinto as pedras chegando em 3, 2, 1… Mas só para deixar claro (e botar ainda mais lenha na fogueira): eu não tô falando do brasileiro que recebe o Bolsa Família. Esse devia reclamar mesmo, e muito. Eu tô falando do brasileiro classe média que está se sentindo ameaçado pelos “emergentes” e pelos bandidos que esse bando de ativistas sem noção pela causa dos direitos humanos fica defendendo. Eu nunca vi tanta gente egoísta na minha vida como brasileiro que reclama nas redes sociais que o país tá uma bosta, que fica repetindo milhões de clichês sobre a violência, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Sorte minha que minha família mora numa cidade pequena.

Eu digo sorte porque longe das grandes cidades (e grandes confusões) a vida tem outro ritmo. As pessoas ainda estão mais preocupadas com quem traiu quem, quem engravidou, quem teve criança, quem foi internado por causa de um câncer absurdo que apareceu de uma hora para outra, quem ajuntou, quem separou, quem morreu e do quê e essas fofocas tipo novela das nove. E sabe que é uma delícia falar com a colonada? Porque ao invés de meter o pau na Copa do Mundo o povo fica reclamando é da falta ou do excesso de chuva, do preço do leite (pago ao produtor), de como eles estão se matando de trabalhar em chiqueirão por uma miséria, porque o preço do milho virou e agora… ao mesmo tempo em que todo mundo está feliz da vida porque conseguiu fazer uma reforma ali e outra aqui, porque a soja deu bem, porque está com uma ideia nova de negócio (que às vezes não passa da construção de outro aviário), que vai gastar as calças com o filhx na universidade (morrendo de orgulho).

Eu voltei com a sensação de nunca ter visto o Brasil tão rico. E nunca ter me tocado de tanto luxo que envolve a nossa vida (do lado de lá): talvez porque eu esteja grávida mas… tem coisa melhor do que melancia? E manga então? Frutas em geral que tem gosto de verdade… E nem vou tocar no mérito do churrasco porque, costela gorda e bem assada faz qualquer um feliz demais. E mesmo que a gente nunca tenha dinheiro para nada, fim de semana nunca passa sem uma cervejinha (no meu caso, sem alcool) e uma carninha no fogo. Pra quem mora num país onde a comida tem gosto de papel e conservante, comer comida de verdade é um luxo sim!

O Brasil está mais rico do que nunca. É o brasileiro que continua pobre – e infelizmente, dessa vez a pobreza maior é no espírito. Bem maior do que na carteira…

Algumas verdades sobre a imigração para a Suécia II

No fim do ano eu percebi um tanto quanto feliz que “algumas verdades sobre a imigração para a Suécia” foi o post mais popular do ano de 2013. Não sei se o pessoal acabou acessando o post porque, afinal, parece que todo mundo vem para cá querendo saber como requerer o visto ou se foi curiosidade mesmo. Em todo o caso, convido os leitores que não visitaram o link do primeiro post no ano passado a fazerem e vou deixar com vocês uma versão número dois para o tema.

A questão dos refugiados na Suécia – assim como na Europa inteira – vem dando o que falar. Com a crise na Síria ano passado estima-se que cerca de um milhão de pessoas deixaram o país. A maioria desses refugiados se volta para a Europa. E a Europa vem se fechando para eles. Na Suíça foi feito há pouco um referendo popular consultando a população a respeito da imigração para o país – não só de refugiados mas também – e a população deixou claro que quer que isso acabe.

Assim como os suíços, há muitos suecos preocupados com a questão do impacto que a chegada dos refugiados “em massa” causa para o país. Essa “massa” não é tão grande quanto as notícias querem fazer acreditar e, na verdade, os gastos com esse pessoal não é tão exorbitante. Na minha opinião o problema não é o governo investir em integração e sim como o governo está investindo.

Em todo o caso, há enormes mau-entendidos ao redor de toda essa situação e também uma forte rede de boatos. E aqui na Suécia também existe esse tipo de gente que fica compartilhando qualquer tipo de notícia (principalmente na internet) antes de saber se é verdade. Mas existe esse outro tipo de gente curiosa (como eu) que vai sempre ficar fuçando atrás de estatísticas e essas outras coisas meio bobas.

E fuçando e fuçando encontrei uma lista no site do Migrationsverket (em sueco) sobre os mitos mais comuns sobre imigração (na Suécia). Cada ponto da lista é enorme por isso escolhi alguns deles para compartilhar hoje. Quem sabe num futuro eu compartilhe mais coisas.

“Nenhum país acolhe tantas crianças e adolescentes refugiados como a Suécia”

Sim, é verdade: a Suécia é a campeã no acolhimento de crianças e adolescentes refugiados. (A palavra em sueco é uma só para designar tanto crianças como adolescentes refugiados: ensamkommande  barn). 

A tabela abaixo mostra os cincos países europeus que acolheram o maior número de crianças/adolescentes refugiados durante os anos de 2010-2012;nos quais a Suécia ocupa o primeiro lugar.

A maioria das crianças/adolescentes que procuraram por asilo na Suécia durante esse períodos vieram do Afeganistão e Somália. 93% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram do Afeganistão e 97% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram da Somália foram aprovados.

No total foram concedidos 1 974 vistos de asilo para crianças e adolescentes refugiados na Suécia em 2012, o que representa um percentual de quase 70% dos pedidos (ou seja, mais de 30% dos pedidos foi negado).

2012 2011 2010
Sverige 3 578 Sverige 2 657 Sverige 2 393
Tyskland 2 096 Storbritannien 1 277 Storbritannien 1 364
Belgien 1 001 Belgien 860 Belgien 1 081
Norge 964 Norge 858 Norge 892
Storbritannien* 728 Tyskland 667 Nederländerna 701
Crianças somalianas refugiadas no Quênia.  Fonte: Terra

Crianças somalianas refugiadas no Quênia.
Fonte: Terra

“As crianças/adolescentes que buscam asilo são na verdade adultos…”

A maioria dos jovens que procuram asilo na Suécia é  composta por meninos entre 15 e 17 anos. Nos últimos oito anos tem crescido o número de crianças/adolescentes que pedem asilo de cerca de 300 para 3 578 (2012). E eles vem principalmente do Afeganistão e Somália.

Independente do refugiado ser um jovem ou adulto eles terão que provar porque precisam de asilo. Se ficar comprovado que uma pessoa precisa de proteção a idade não tem qualquer significado.

Entretanto, a idade faz toda a diferença se uma pessoa será exilada. Para que o departamento de imigração possa emitir uma ordem de saída do país é necessário que exista algum responsável pela criança/adolescente em seu país de origem. Isso significa que, ou os pais, ou um parente ou uma instituição social deve acolher essa criança/adolescente. Se isso não for possível a Suécia é obrigada a acolher esse refugiado por conta da impossibilidade de se encontrar outro responsável por ele/ela.

A idade do solicitante também assume significado no caso dessa pessoa ter um registro por ter viajado/estado ilegalmente na Europa. Uma pessoa adulta irá responder ao acordo de Dublin. Para a criança adolescente isso só será possível se ele/ela já houver procurado por asilo em outro país da Europa (com exceção da Grécia).

A idade tem enorme significado na forma de tratamento que as crianças/adolescentes (que esperam pela aprovação do asilo) tem na Suécia. Criança e adolescentes que vêm sozinhas recebem uma outra espécie de apoio, que inclui tutores, abrigos, e convivência com outros adolescentes/crianças (do mesmo país de origem).

É da responsabilidade do solicitante comprovar que sua identidade é verdadeira. E isto pode ser feito por meio de diversas formas de documentos de identidade. Muitas crianças/adolescentes não possuem um documento de identidade oficial porque em seus países não existe um sistema sério de identificação social. Isso significa que muitos deles passam por grandes problemas caso a imigração sueca questione a veracidade dos documentos apresentados.

O responsável pelo caso no departamento de imigração é quem vai analisar se a idade do requerente é verdadeira. Isto pode ser feito por meio de entrevitas ou, em casos extremos, avaliação médica. Esta última não é obrigatória.

Cerca de 5% dos processos em que a idade do requerente é questionada resultam na correção da idade informada. Essa alteração não é judicial e como tanto, não pode ser contestada.

Eu gostaria de acrescentar uma questão: a grande maioria dos adolescentes que procuram asilo na Suécia não estão apenas fugindo da guerra e sim da família e de uma possível condenação a morte. Em 78 países do mundo, assumir-se gay implica uma série de complicações, porque a homossexualidade é tratada como crime. A Somália é um dos mais duro deles (ao lado da Arábia Saudita e mais três países na África) onde assumir-se homossexual leva a pena de morte. E se no Brasil – onde a homossexualidade “não é crime” – homossexuais são espancados, estuprados e assassinados diariamente, o que não imaginar em um país onde esse tipo de prática não é apenas liberada por lei, mas esperada.  Não é a toa que o maior número de adolescentes que buscam refúgio na Suécia são meninos entre 15 e 17 anos.

A Suécia não é vista apenas como um paraíso de igualdade pelos brasileiros, é visto como um paraíso de igualdade por toda a comunidade homossexual do planeta. Apesar disso, a comunidade HBTQ sueca anda muito desapontada com o departamento de imigração. Uma série de homossexuais (tanto adolescentes, quanto adultos) que solicitaram asilo político no país foram enviados de volta ao seu país de origem. Alguns deles caíram em um limbo pois a família não quer aceitá-los de volta (eles são uma vergonha) mas eles tiveram seu retorno a Suécia negado. Crescem o número de organizações não governamentais que apoiam, abrigam e  escondem esses refugiados enquanto lutam na justiça pelo direito de que mais homossexuais recebam asilo na Suécia.

Mas esse tipo de informação não é tão explorada pela mídia quanto os altos custos da imigração para o país. Uma pena. Em um tempo em que quase tudo pode cruzar as fronteiras de qualquer país de forma rápida e rasteira – é só pensar no dinheiro: quanto tempo demora para que uma quantia de dinheiro seja transferida da China para o Brasil? Segundos? – o ser humano ainda tem que ficar preso as fronteiras imaginárias dos países desse mundo que se intitula uma “aldeia”.

E soa tão falso quanta a propaganda da Tim: Viver sem fronteiras. Quem?

Papo furado e surpresa

Como diria a portuguesa mais engraçada que eu conheço, se há um limbo para blogueiras… bom, eu estaria lá. A cada recomeço de semana faço os meus votos de ser uma blogueira melhor mas pá: não respondo coments, não posto nada de novo e as novidades se tornam velhas e well, quem é que quer saber de fofocas velhas?

Continuando os informes do tempo, as temperaturas caíram um tanto no fim de semana, o que me deu um domingo ensolarado e aquela sensação super besta de felicidade só por ver o azul do céu e o sol brilhando. Falando nisso, quem quiser ler um pouco mais sobre os efeitos da escuridão sobre o corpo humano, dê uma passadinho no blog Brasileiras pelo Mundo e confiram o post da Evelyse Eerola que mora na Finlândia – lembrando que, por aqui também estamos na média das 7 horas diárias de luz apenas, com direito a lusco fusco chato e permanente céu cinza em Göteborg onde sempre está nublado. Tivemos temperaturas negativas no domingo, na segunda e em parte do dia de ontem, mas já voltamos aos confortáveis zero graus Celcius e… sem neve – no caso de Göteborg. Bom e mau pois, com o sobe e desce de temperaturas, se neva tudo derrete, fica feio, cinza e lamacento; depois congela de novo e fica escorregadio. Uma delícia!

Mas vamos ao que interessa: o blog alcançou (no domingo) 100 fãs no Facebook e 50 seguidores no WordPress (e está quase nos 100 assinantes por e-mail). Muito obrigada! Como forma de agradecimento eu vou realizar um pequeno sorteio de guloseimas (o chocolate Daim que eu sei que a Dani adora a maioria do pessoal que vem para cá pira o cabeção mais lakrits, que é para os brasileiros poderem experimentar o godis mais controverso do mundo) plus uma caneca para o pessoal que curte a página e os seguidores WordPress no dia 20 de janeiro. Para quem curte a página no Facebook e é expert nas configurações de privacidade mas ainda quer concorrer eu deixo uma dica: deixe uma mensagem na página do Uma Caipira da Suécia até o domingo, pois algumas das configurações de privacidade não permitem que eu veja o seu nome (mesmo que eu acesse lá o registro para ver todos os fãs da página). Posto uma foto do pacote no facebook até o fim de semana (estou meio atrapalhada – sempre!).

Fiquei muito contente por alcançar essa marca. Eu entendo que isso não significa nada em termos da rede (com bilhões de usuários pelo mundo, o que são 100 seguidores? o,ooo1%?) mas eu fico super feliz ao perceber que mesmo que eu escreva sobre coisas simples (não vou mudar o mundo, e às vezes é só um diário pessoal/desabafo) ainda tem gente que curte esse espaço. Obrigada pelo carinho e saibam que isso sempre motiva o blogueiro a continuar!

Se você ainda não curtiu a página ou assinou o blog por e-mail, ainda dá tempo! Segunda eu anuncio o ganhador…